Manchas e padrões únicos: como as onças-pintadas são identificadas no Pantanal de Mato Grosso

No Pantanal mato-grossense, pesquisadores têm desenvolvido projetos dedicados a registrar o comportamento das onças-pintadas, suas interações, territórios e até a árvore genealógica desses felinos. O objetivo é compreender melhor a espécie e fortalecer as ações de preservação da fauna e do bioma.

O avistamento de onças-pintadas no Pantanal de Mato Grosso costuma despertar forte emoção e, ao mesmo tempo, envolve uma técnica cada vez mais aprimorada: a identificação desses felinos por meio dos padrões de manchas e pintas presentes em suas pelagens. Esse método, que exige cuidado e precisão, foi detalhado em um documento elaborado pelo Sesc Pantanal, divulgado no último sábado (29). O material funciona como um guia de referência para a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), localizada em Barão de Melgaço, a 121 km de Cuiabá.

As imagens utilizadas no guia foram obtidas por meio de 165 armadilhas fotográficas distribuídas pela reserva. Entre 2020 e 2023, ao menos 39 onças foram registradas, algumas delas inclusive recebendo nomes escolhidos por votação popular. Esse número, porém, não representa a população total de felinos presentes na área, mas apenas os indivíduos que foram efetivamente captados pelas câmeras.

Para o pesquisador Guilherme Servi, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o guia separa as onças por machos e fêmeas, com imagens de diferentes regiões para identificar cada animal, além de árvores genealógicas dos felinos no final do documento.

“As onças-pintadas possuem um padrão único de pelagem para cada indivíduo, funcionando como uma impressão digital. Suas pintas e rosetas das laterais do corpo, da face e da cauda formam combinações exclusivas para cada animal”, explicou.

A ação de catalogar as onças-pintadas também conta com a participação do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Grupo de Estudos em Vida Silvestre (GEVS) e da Fiocruz, que atuam em conjunto para fortalecer o estudo e a conservação da espécie.

Segundo os pesquisadores envolvidos, a expectativa é que, no próximo ano, seja possível divulgar uma estimativa da população de onças-pintadas que habita a RPPN Sesc Pantanal — uma área considerada essencial para a preservação da espécie e para a proteção do Pantanal como um todo.

O monitoramento das onças-pintadas no Pantanal também é realizado por diversos projetos voltados ao ecoturismo. Entre eles está o Jaguar Camp, conduzido pelo guia de turismo e gestor ambiental Ailton Lara, que mantém um vasto catálogo dos felinos observados durante os passeios de barco na região.

“Não se trata apenas de avistar a onça, mas de reconhecer cada indivíduo e sua trajetória. Com observação direta e apoio de armadilhas fotográficas, conseguimos contribuir muito para o conhecimento científico local e para enriquecer a experiência dos visitantes”, afirmou.

Lara destaca que acompanhar o comportamento das onças permite compreender melhor a relação delas com o ambiente. “Esses registros acumulam anos de avistamentos, genealogias, interações entre indivíduos, eventuais indícios de consanguinidade, formação de coalizões entre machos — algo que já identificamos algumas vezes — além de interações agressivas, acasalamentos entre machos e fêmeas que ainda cuidam de filhotes (incluindo episódios de falso cio, usado como estratégia de proteção). Todos esses comportamentos ajudam a entender a dinâmica de cada animal”, explicou.

Para ele, a preservação só é possível quando há conhecimento e conexão com a natureza: “As pessoas só conseguem proteger aquilo que conhecem e aprendem a valorizar. Amar é o primeiro passo para proteger”, reforçou.

🐆 Como identificar uma onça-pintada?

De acordo com a 12ª edição da coletânea “Conhecendo o Pantanal”, cada onça-pintada apresenta um padrão exclusivo de manchas distribuídas pela pelagem. Essas marcas, conhecidas como rosetas, possuem formas e arranjos distintos em cada indivíduo — funcionando como uma espécie de impressão digital natural, impossível de ser repetida.

Embora à primeira vista as rosetas pareçam semelhantes entre as onças, a combinação entre elas e as pequenas pintas ao redor forma um “código visual” único. É justamente esse padrão que permite que pesquisadores e guias especializados façam a identificação precisa de cada animal ao longo dos anos, acompanhando sua história, comportamento e relações dentro do ecossistema.

(Veja exemplo a seguir.)

O pesquisador Servi explica como proceder ao avistar, mesmo de longe, uma onça-pintada e registrá-la corretamente para posterior identificação.

“Quando ocorre um avistamento, o ideal é fotografar o animal e marcar a localização. Em seguida, o processo consiste em consultar o guia, começando pelas onças já registradas naquela área ou em regiões próximas. Caso seja possível identificar o sexo do indivíduo, o leitor pode direcionar a busca para a seção correspondente — machos ou fêmeas. A partir disso, a tarefa é comparar as imagens feitas no momento do avistamento com as fotos do guia, buscando a correspondência que melhor se encaixa no perfil da onça observada”, orientou.

Para facilitar a identificação visual de cada roseta — ou de um conjunto delas — o guia recomenda observar a forma como essas marcas se associam na pelagem. Alguns conjuntos podem lembrar figuras, como um sol, um triângulo ou outros padrões geométricos, o que ajuda a reconhecer o indivíduo com mais precisão.

“Uma vez associada, essa roseta funciona como ponto de referência. A partir dela, analisamos as manchas ao redor para confirmar se existe correspondência com um registro já catalogado. Cada flanco do animal possui um padrão único e distinto. Por isso, o ideal é observar os dois lados de uma mesma onça. Quando isso não é possível, recorremos a outras regiões do corpo”, explica um trecho do guia.

Entre as áreas mais importantes para identificação estão os perfis da cabeça, especialmente a testa e a face, e também a região traseira, incluindo a cauda.

“Essas partes apresentam manchas características que permitem identificar cada indivíduo. Uma boa visualização lateral ou do flanco traseiro também auxilia na confirmação do sexo da onça”, destaca o documento.

O processo de identificação, porém, pode ser prejudicado por fatores como iluminação e ângulo da fotografia, que alteram a forma como as rosetas são percebidas na imagem. “Por isso, antes de chegar a um veredito sobre a identidade de uma onça, é fundamental observar várias correspondências entre as rosetas da foto analisada e as imagens de referência”, orienta o documento.

A expectativa é que esse trabalho seja ampliado nos próximos anos, conforme explica Servi. “A ideia é expandir o alcance do guia e incluir dados de Ciência Cidadã, além de registros feitos por turistas, para fortalecer o catálogo e aumentar o escopo do monitoramento das onças-pintadas na área da reserva”, afirma.

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